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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Presente do blog - Nina Reis: Um amor de secretária

Uma secretária compete...
Um Advogado obcecado por trabalho...
Uma noite como tantas outras trancados em um escritório, trabalhando em várias causas processuais...
O que poderia acontecer de extraordinário???

Um Incêndio!!!

O que será despertado???

Venha deliciar-se neste conto... 






Apresentando um lindo conto de Nina Reis: Um amor de secretária

Caros amigos,
É com imenso prazer que hoje, ao completarmos três meses de abertura do blog, postamos o conto, Um amor de secretária, da nossa querida amiga, parceira e integrante do Staff do nosso blog, Nina Reis.
Durante estes meses podemos perceber a natureza sensível e criativa desta autora talentosa.
Aqui autora também nos relata a origem deste delicioso conto.
Stein Rood

 Nota da Autora

Quando eu estava escrevendo Uma Flor No Meu Caminho, fiz uma homenagem as minhas amigas Rafaela Cavalhero e Sandra Evaristo, criando personagens com seus nomes:

Rafaela: a melhor amiga da mocinha
Sandra: a secretária do irmão do mocinho

Qual não foi a minha surpresa, quando empolgada com a leitura e com seu singelo personagem, Sandra Insana Evaristo, divaga imaginando uma história de amor caliente entre sua personagem e seu charmoso chefe!

Nunca incentive uma mente insana...

Pois bem, foi assim que nasceu Um amor de Secretária, um presente que criei com muito carinho para minha amiga, uma homenagem nascida de um coração para outro coração...

Espero que se divirtam e se apaixonem por essa mocinha cativante e o mocinho charmoso e apaixonado.

Nina Reis



segunda-feira, 28 de julho de 2014

Nina Reis - Uma Flor em meu Jardim - Parte II

Três meses depois...

Maria Flor andava de um lado para o outro na sala de espera do advogado ainda indignada. Cássio, o homem protozoário, entrara com uma ação contra ela, alegando direito ao apartamento e a loja com base na lei de união estável, o homem era um verme!

- A senhorita aceita um chá ou água? – Já era a terceira vez que a eficiente secretaria que usava um caro terninho escuro fazia a pergunta.

- Um copo de água, obrigada. – ela se forçou a sentar, mas estava ansiosa demais, na realidade o ambiente sofisticado e elegante daquele escritório a estava intimidando também, começava a imaginar o quanto seriam os honorários cobrados para manter um escritório de cinco andares num dos edifícios comerciais mais caros da cidade. Ela forçou um sorriso a secretária que voltara com seu copo de água gelada.

- Não se preocupe, o Dr. Lins e Silva a atenderá daqui a pouco. – ela disse naquele tom polido que a fazia ter vontade de gritar de frustração, parecia que todas as mulheres daquele escritório emanavam elegância e sofisticação, o que fazia piorar ainda mais seu estado de espírito, nunca se sentira tão deslocada em sua vida. – Ele é um excelente advogado, pode confiar nele. – ela disse simpática e Maria Flor se sentiu ainda pior, a moça só estava fazendo o trabalho dela e sendo gentil. Era sua culpa, ter imaginado que estava apaixonada pela cobra asquerosa e ter dividido o mesmo teto com o sujeito durante um ano.

Cristo! – ela rezou ela rezou em silêncio.

Nos últimos três meses, sua vida fora atribulada, esperara quinze dias pelo desconhecido que Rafa apelidara de homem da seda, ele não aparecera nem dera notícias, porque deveria? Quando um homem como aquele ficaria louco por uma mulher comum como ela?

Então fora à Holambra para um curso de paisagismo, floricultura e gestão comercial, para qual se inscrevera com um ano de antecedência, os custos com viagem ida e volta eram altos e como Rafaela se prontificou a cuidar da floricultura, ficara um mês fora da cidade.

Seu coração se aqueceu ao recordar da cidade que parecia saída de um conto de fadas, a beleza e a tranquilidade a ajudaram a curar o coração machucado. No final do curso, uma surpresa, fora indicada para uma bolsa de dois meses em Aalsmeer, na Holanda, para aprender as mais modernas técnicas em floricultura.

Dias depois embarcara para Holanda, fora uma experiência incrível, a cultura, a beleza da cidade, poder visitar o maior e mais famoso mercado de flores do mundo, não só a preparara melhor para gerir seu negócio, mas a ajudara a curar sua alma e quando retornou ao país há dois dias ficara sabendo que Cássio, a ameba, queria tirar dela sua loja e seu apartamento, só por cima do seu cadáver, poderia até perder seus bens para pagar a fortuna que cobrariam esses advogados, mas ele não veria um centavo do seu dinheiro. – pensou determinada.

O som da porta do escritório se abrindo a fez abandonar suas divagações, ansiosa levantou e olhou em direção da secretária aguardando a autorização para entrar na sala, porém sentiu o coração bater desesperado ao reconhecer a voz de um dos homens que agora falavam a porta da sala do tal Dr. Lins e Silva, eram homens muito parecidos, mas era o mais alto que fez seu coração quase sair pela boca. Estava olhando para o seu homem da seda.

Ele sentiu o perfume inconfundível antes de vê-la, num minuto finalizava a conversa com Maurício, seu irmão mais novo, especializado em direito de família no minuto seguinte enxergava parada em meio à sala de espera a personificação de seus desejos, há três meses estava obcecado por encontrá-la ela parecia ter desaparecido da face da terra, a amiga que ficara responsável pela floricultura não lhe dissera nada sobre ela nem seu paradeiro e agora lá estava ela, linda, as curvas disfarçadas por um vestido formal, decididamente ele preferia quando ela usava jeans, pensou enquanto caminhava em sua direção.

- Oi. – ela o cumprimentou tímida e isso foi o que o salvou de uma cena no escritório, pois estava pronto para beijá-la ali mesmo, diante de todos.

- Oi – ele respondeu. Cara como era difícil manter as mãos longe dela – pensou. – Como me achou? – ele perguntou, pois apesar de deixar o telefone com a amiga nervosinha, ele não disse seu sobrenome ou no que trabalhava.

Ela olhou para ele visivelmente confusa e foi Sandra, a secretária do irmão que esclareceu a situação.

- Na verdade a senhorita Salles Guerra tem hora marcada com o Dr. Maurício.

- Veio falar com meu irmão? Por quê? – Dessa vez foi o próprio Dr. Mauricio que intercedeu.

- Vejo que conhece a senhorita Salles Guerra, então porque não nos acompanha em nossa reunião? – Mauricio sugeriu, sem esconder do irmão a curiosidade pela reação do mais velho a presença da jovem mulher.

- Claro.

- Não.

Responderam ao mesmo tempo.

- A senhorita tem objeção a presença do meu irmão?

Estava pronta para responder que sim quando o homem de seda sussurrou ao seu ouvido.

- Maria Flor não tem força na terra que me afaste dessa sala.

- É claro que não. – ela forçou um sorriso, e acompanhou aos dois homens e preparou seu espírito para mais uma seção de humilhação diante desse homem.

Dr. Mauricio se acomodou atrás da elegante mesa, enquanto ela e o irmão dele, que continuava sem nome, sentou ao seu lado.

- O Henrique me adiantou seu caso, você trouxe os documentos que minha secretária pediu?

- Estão aqui. – ela entregou a pasta que trazia – Dr. Maurício quero lhe agradecer por ter me atendido tão rapidamente.

O homem ergueu brevemente os olhos do conteúdo da pasta.

- O Henrique é um grande amigo, você foi muito bem recomendada, ele me disse que se eu não cuidar bem de você, sou um homem morto e como amo minha vida...
O comentário a fez sorrir.

- Quem é Henrique? – Miguel perguntou enciumado chamando a atenção do irmão.

- Ele é o noivo da Rafaela. – ela esclareceu, seu corpo inteiro em alerta pela proximidade dele, sua mente girava processando informações, ele era um Medeiros Lins e Silva? Oh meu Deus, havia homem mais inatingível? Talvez o homem mais rico do Brasil fosse mais acessível que qualquer membro daquela tradicional família.

- Sua amiga irritadinha? – a pergunta a fez levantar uma sobrancelha, do jeito que o fazia lembrar da discussão que tiveram por conta das flores de sua mãe.

O irmão pigarreou chamando a atenção dos dois.

- Seu ex namorado não tem um caso, na verdade ele esta tentando uma manobra muito utilizada por advogados.

Maria Flor teimou em aceitar que seria tão fácil se livrar do sangue suga do ex – namorado.

- Esta me dizendo que mesmo com a união estável, ele não tem direito a nada? –Oh Deus permita que seja verdade.

Miguel ouviu a razão dela estar ali e jurou que daria uma lição no desgraçado.

- Senhorita Salles Guerra, seus bens são anteriores ao tempo em que moraram juntos, está tudo muito bem documentado, vocês não possuíam conta conjunta, então ele não pode alegar que tem parte da sua renda mensal. Pelo que pude notar, nenhum depósito em dinheiro ou cheque foi feito por ele, nem em sua conta pessoal, nem na conta do estabelecimento. Ele pode até alegar união estável, mas não terá direito a nenhum de seus bens. O que ele quer é fazer pressão psicológica, o advogado dele está contado com sua ingenuidade ou desconhecimento das leis, eles jogam verde, para colher um belo acordo.

- Acordo? – ela perguntou confusa.

- Sim, eles a assustam, você os procura, o advogado lhe propõe um acordo, claro, uma pomposa soma em dinheiro, porém bem menor do que representam a venda de seus bens, você preferindo não arriscar, aceita o acordo, acreditando que estava prestes a perder tudo.

- É uma jogada medíocre, mas acredite, funciona mais do que possa imaginar, infelizmente.

- Vamos processá-lo. – Miguel não fez uma pergunta, e o sorriso do irmão demonstrou que entendia a ordem do mais velho.

- Com todo prazer. – Mauricio respondeu.

- Podemos processá-lo? – Maria Flor não chegara a pensar nessa hipótese até aquele momento, mas nunca algo lhe pareceu tão justo.

- Você fez algo que há muito tempo não via, documentou com testemunhas o adultério, quem a orientou está muito bem informado, apesar de adultério não ser desde 2005 um crime penal, o direito cível tem registrado inúmeras sentenças de danos morais e no seu caso, uma micro empresária bem sucedida, podemos incluir danos a imagem e porque não financeiro?

- Ele pode ir preso? – apesar de desejar justiça, não queria ver o miserável preso.

- Dificilmente, mas terá bastante trabalho comunitário, além de arcar com uma gorda indenização.

O alívio foi tamanho que ela não conseguiu esconder, respirou fundo, os olhos estavam marejados, tentou disfarçar, mas foi em vão.

- Desculpem, mas eu estava tão preocupada. – ela respirou fundo mais uma vez tentando conter as lágrimas de alívio. – Na verdade estava apavorada. – ela pegou o lenço que o homem da seda lhe estendeu.
Dr. Mauricio lhe sorriu solidário.

- Seja bem vinda a Lins e Silva Advogados Associados, será um prazer tê-la como cliente.
- Obrigada.

Nos minutos seguintes ela foi orientada quais documentos deveriam ser providenciados e de como seria o andamento do processo. No instante em que se viu fora da sala do agora, seu advogado, se viu sendo levada pelo homem da seda em direção da porta mais próxima que descobriu ser a que dava acesso a escadaria.

- Por onde andou nos últimos três meses e porque não respondeu nenhum dos meus recados, porque não me ligou? – ele estava furioso, não com ela, ela o deixava frustrado, pois agora que seu escritório a representava não poderia tocar num fio de cabelo dela. Não até o fim da porra do processo. Merda! – praguejou em pensamento.

Ele estava com os dois braços apoiados a parede atrás dela, um de cada lado de seu corpo, não tinha para onde ir, nem como espaçar dele, espera aí, ela ouvira direito?

- Você me deixou um recado? Quando? – o cheiro dele, madeira e chuva a estavam embriagando – Antes de mais nada, você tem um nome? – Rafaela tinha muito quem lhe explicar. – ela pensou.

A pergunta o fez sorrir, na noite em que ela lhe roubou a paz, tinha acabado de chegar à casa dos pais quando se deu conta que não dissera seu nome.

- Miguel Medeiros Lins e Silva. – Nossa, o perfume dela o estava matando.- Sou advogado e tenho trinta e cinco anos.
Ela sentiu o peito afundar ao ouvir dos lábios dele a confirmação do sobrenome importante.

- Prazer Miguel – ela brincou para disfarçar sua decepção – sou Maria Flor Salles Guerra, sou florista e tenho 28 anos.

Os Salles Guerra tinham sido uma importante família da sociedade paulistana, mas o dinheiro com os anos se fora, sobrou somente o sobrenome de tradição que ele já percebera que ela fazia questão de ignorar a importância, algo lhe dizia que havia uma história ali e ele investigaria.

- O prazer é meu Maria Flor Salles Guerra. – ele se aproximou ainda mais, os lábios a centímetros do dela. – Droga! – ele praguejou – Não posso tocar em você.

- Não pode? – oh Meu Deus, ele é casado? Perguntou-se ainda mais confusa.

- Não até o fim desse maldito processo. Meu escritório representa você, não há lei que proíba, mas o advogado do seu ex namorado pode alegar conflito de interesses, você entende?

- Devo mudar de advogado? – A pergunta o fez sorrir, adorava a maneira ingênua, quase inocente dela pensar.

- Não há melhor advogado na vara de família que o Mauricio, quero que ele cuide de seu caso, mas isso manterá minhas mãos longe de você durante no mínimo três meses.

- Mínimo? – que conversa era aquela?

- Se ele levar mais que noventa dias nesse processo eu juro que darei uma surra no meu irmão.

Cristo, ele precisava beijá-la. Para o inferno com o processo, ele podia comprar o edifício na Consolação e o apartamento e dar de presente a ela. – Quero muito amar você Maria Flor, nem imagina o quanto. – sussurrou junto à orelha dela. – Aquela sua amiga super protetora não acreditou quando eu disse que um imprevisto me manteve nos EUA por mais alguns dias, ela me disse para esperar você, que seu eu estivesse realmente interessado, esperaria você. Consegue sentir meu corpo clamando pelo seu? – ele perguntou.

Ela não conseguia responder, estava tão sensível, sentia sua pele hiper sensível a proximidade dele, era tudo tão forte e tão novo, nunca imaginou que uma mulher poderia se sentir assim.

Fechou os olhos ao sentir a boca dele próxima a pele de seu pescoço, porém ele não a tocava, nenhuma parte do corpo dele tocava o dela.

- Três meses e nenhum dia a mais, entendeu? – ele perguntou.

- Não pode mesmo me beijar? – ela perguntou perdida, se o custo para fazer justiça era mantê-lo longe, ela já não tinha certeza se valeria a pena. – Como pode ser tão forte, quando sequer nos conhecemos? – ela perguntou.

- Não faço a menor ideia, só sei que sonho com você todas as noites e passo os dias fantasiando sobre como será sentir seu corpo sob o meu, como será estar dentro de você – ela gemeu, seria possível que ele pudesse fazê-la chegar ao orgasmo sem tocá-la? Pois ela jurava que estava quase lá.

Miguel respirou fundo, estava prestes a mandar tudo ao inferno, aquela mulher conseguia turvar sua mente, inverter suas prioridades.

-Vou acompanhar você até seu carro, antes que nós dois façamos algo que podemos nos arrepender depois.

- Na verdade eu vim de metrô – ela percebeu que ele não gostara nada da resposta. 

- Vou levá-la até a floricultura.

- Não. – ela respondeu. – É melhor eu descer sozinha.- a última coisa que precisava nesse momento era estar num carro sozinha com ele, quando seus hormônios estavam todos fora de controle.

*******************


Longos Três meses depois

- Graças a Deus! – Maria For exclamou ao entrar em seu apartamento. Seu pesadelo chegara ao fim, tivera que encarar Cássio e a mulher fruta do 52 na sala de espera da audiência, mas ver a expressão do verme enquanto o juiz lhe dava um sermão sobre como ele deveria procurar ganhar o próprio dinheiro ao invés de tentar explorar mulheres não tinha preço e por falar em preço, após deixarem o fórum, seu advogado anunciou que os honorários não seriam cobrados, que os serviços prestados foram uma cortesia do escritório Lins e Silva.

Ela trocou de roupa, colocou uma calça de malha folgada e uma blusa curta, apesar de lá fora estar dez graus o interior do apartamento estava aconchegante e o chão de madeira lhe permitia andar descalça pelo apartamento.

Rafaela estava a caminho, dissera que traria uma champanhe para comemorar sua liberdade da anta humana.

Ela sorriu ao pensar na amiga, eram como irmãs, já haviam passado por coisas boas e ruins juntas, tinham uma amizade preciosa, agradeceu a Deus por ter alguém como ela em sua vida e agora também eram oficialmente sócias.

Sua mente evocou a imagem de um homem moreno, não se viam ou se falavam há três meses... A mulher prática nela dizia que três meses eram muito tempo, a sonhadora queria ligar para ele e lembrá-lo que os três meses chegaram ao fim.

Ela suspirou, essa noite celebraria com sua amiga, amanhã, se tivesse coragem suficiente, ligaria para ele.

O som da campainha anunciou a chegada de sua convidada.

- Chegou rápido, alugou um helicóptero? – brincou ao abrir a porta, mas do outro lado não estava a amiga de toda uma vida.

- Três meses e nenhum dia a mais. – Miguel disse ao entrar. Essa mulher não tinha ideia de quantos favores teve de pedir para garantir que não ficaria nem mais um dia longe dela.

- Você desapareceu. – ela argumentou.

- Você me disse que tinha entendido o que disse a você.- disse ao fechar a porta.- Acompanhei cada fase do processo Maria Flor, acompanhei você através dos comentários do Maurício e da Rafaela – ela o interrompeu.

- Você tem falado com a Rafaela? – ela perguntou atônita a bandida não lhe dissera nada.

- Fiz mais que isso. – ele confessou – sei que apesar de estar longe do ideal, sua situação financeira é mais confortável que há seis meses, sei que cuida desse prédio que herdou com carinho que não existe em proprietários nos dia de hoje.

Sei que minha mãe vai regularmente a floricultura só para conhecer melhor a mulher que roubou o coração do filho mais velho dela.

- Sua mãe vai a minha floricultura? - ela estava pasma – Não pode ser.

- Você a chama de Dona Luíza. – ele estava rindo, acabara de dizer que estava apaixonado e ela sequer percebera.

- Mas ela é loira? – adorava Dona Luiza, ela era alegre, divertida, elegante e de uma simplicidade impar e adorava lírios, como não percebera? – Sempre achei que ela fosse morena.

- Sei que sua família sofreu muitas humilhações quando perdeu o dinheiro e se eu pudesse faria cada pessoa pagar por cada insulto dirigido a seus pais e a você.

– disse eliminando o espaço entre eles. – Sei que tem um coração generoso e que apesar das coisas pelas quais passou, acredita na bondade inerente que existe em cada pessoa – ele passou um braço pela cintura dela, a outra mão afagava o rosto delicado – tenho muito orgulho de você Maria Flor Salles Guerra e por ultimo e não menos importante, sou muito grato por não ter feito o tal voto de castidade que mencionou quando nos conhecemos.

Ela estava tão imersa nas sensações que ele provocava em seu corpo que demorou cinco segundos para entender seu comentário e quando o fez explodiu numa gargalhada deliciosa.

- Você é minha Maria Flor, finalmente é minha.

- Sua. – ela sussurrou instantes antes de ser beijada com tanta paixão e reverência que levou lágrima a seus olhos.

- Para sempre minha flor. – ele sussurrou em seu ouvido.


- Para sempre – ela respondeu.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nina Reis: Uma flor em meu caminho - Parte I

Início de tudo...
Naquele inicio de noite, um número incontável de veículos movimentavam-se muito lentamente, o constante buzinar era o registro de ânimos exaltados e a frustração em saber que de nada adiantaria perder a calma, pois isso não resolveria a situação, parecia contribuir ainda mais para a irritação de motoristas e passageiros. A chuva fina que caíra incessantemente durante todo o dia, tornava o já caótico transito da cidade de São Paulo, ainda pior.

Normalmente o advogado Miguel Medeiros Lins e Silva estaria alheio a tudo isso, habituado ao transito complicado da cidade, o interior do veículo possuía um modernos sistema de computação, ar condicionado e o espaço traseiro, reservado aos passageiros era a prova de som. Quando era obrigado a cruzar a cidade de carro sempre ocupava o tempo estudando os processos nos quais estava trabalhando, fazendo contatos e até vídeo conferências, mas naquela noite ele não conseguia se concentrar, não estava preocupado com o trânsito, seu motorista era habilidoso e muito competente, sabia que logo ele encontraria uma forma de fugir do congestionamento, não era isso que roubava sua paz de espírito, muito menos o dia complicado com reuniões sem fim e uma audiência com um juiz facilmente irritável, não, isso não o irritava, isso era parte da adrenalina de sua profissão, era especializado em grande corporações e direito marítimo comercial, amava o ritmo acelerado de sua vida. O motivo de estar sentindo aquele frio no estômago como se fosse um adolescente tinha nome e sobrenome: Luiza Medeiros Lins e Silva, sua mãe.

Estava a caminho da residência da família para o jantar de aniversário de sua mãe, ele a amava, não havia a menor dúvida disso, mas a mulher nos últimos anos estava empenhada em criticar seu estilo de vida e nos dois últimos aniversários ele ouvira sermões que pareciam não ter fim sobre o fato de estar ocupado demais para comprar um presente para própria mãe e delegar a missão à sua secretária,
como ela descobrira que fora Martha, sua secretária e não ele que comprara os presentes, ainda não tinha ideia... no ano anterior a secretária, a seu pedido, chegara a dizer a sua mãe, que no dia anterior ao jantar ligara para lembrá-lo de seu aniversário, como se ele pudesse esquecer, que ele saíra para comprar o presente, pois bem, foi a mãe abrir a caixa da elegante pulseira de ouro para declarar ofendida que a peça fora comprada por sua secretária e não por ele.

Esse ano ele tentou, chegara até a ir a algumas joalherias, mas no final coubera mais uma vez a Martha a compra do presente e ele estava nervoso, só de imaginar a decepção na face da mulher que lhe dera a vida, ele realmente sentia-se como um menino prestes a ser repreendido.

Merda! Ele estava com trinta e cinco anos, como as mães conseguiam isso?– se perguntou em pensamento. Desistindo de fingir estar estudando um processo, respirou fundo e contemplou a elegante caixa que repousava ao seu lado no banco traseiro e não conseguiu evitar o gemido de desânimo. Ela descobriria, ele tinha certeza. Desviou o rosto em direção à rua e o charmoso edifício antigo, ladeado por modernos arranha céus chamou sua atenção, apesar de muito antigo, parecia bem conservado e foi quando leu a placa que dizia Maria Flor, apesar de não haver maiores explicações no letreiro, a visão através das portas e janelas abertas não deixava dúvidas, era uma floricultura e uma ideia se iluminou em sua mente.

- Roberto, pare o carro. - pediu ao motorista pelo comunicador interno.

- Ele já está parado senhor. – o tom de voz divertida do motorista o fez sorrir.

- Eu já volto. – ele anunciou já deixando o carro, dessa vez sua mãe não se decepcionaria.

- Mas senhor e se o trânsito andar?

- De uma volta no quarteirão. – ele respondeu já caminhando em direção a loja não se incomodando com a chuva fina que salpicava o terno de corte impecável.

- Como assim está presa no congestionamento? – Maria Flor perguntou à amiga ao telefone, ela estava usando um fone de ouvido wireless, sempre o usava na floricultura, assim conseguia atender os clientes e trabalhar em arranjos enquanto atendia as ligações.

- Sabe, é quando tem um carro na sua frente e outro atrás e ninguém anda. – Rafaela respondeu com ironia.

- Eu sei o que é um congestionamento Rafa, o que me pergunto é como foi parar nele? - Elas conheciam ruas para evitar as avenidas principais e que dava na rua atrás da floricultura o porquê da amiga estar na Avenida Paulista é que era um mistério para ela.

Rafa bufou do outro lado da linha.

- Farei o máximo para chegar o mais rápido possível ok? Enquanto isso podemos gastar esses bônus que a operadora nos dá todo mês, o que acha?- Rafaela estava preocupada, de todos os dias que podia se atrasar num encontro com Maria Flor, ela escolhera o pior.

Esse era o pior dia da sua vida – Maria Flor pensou – Não, ela se corrigiu, o pior fora a morte de seus pais num acidente de avião anos antes, esse era o segundo pior dia, ela tinha certeza.

- Sou toda ouvidos Flor – a voz de Rafaela ecoou pelo fone de ouvido a trazendo de volta a realidade – sei mais do que ninguém o quanto você precisa desabafar.

Maria Flor respirou fundo, já havia chorado tanto pela manhã que acabara afugentando vários clientes da floricultura e tudo o que ela menos precisava era  piorar o já delicado momento financeiro que seu negócio estava passando.

Consultou o relógio, já passava das 19:40 h, devia ter fechado há quarenta minutos, mas decidira esperar por Rafaela com a loja aberta, tudo o que não precisava era estar sozinha e na penumbra, já estava deprimida o suficiente.


- Odeio os homens, todos eles. – declarou com uma veemência nascida da indignação e perdida em seu sofrimento, de costas para entrada, não ouviu o sino que indicava a entrada de mais um cliente. – São todos uns egoístas, egocêntricos, narcisistas, hedonistas e todos os “istas” negativos que puder pensar! – desabafou – como ele pode ter feito uma coisa assim comigo Rafa? – perguntou, mas não deu chance da amigar dizer qualquer coisa – Dez minutos, sabe o que são dez minutos, esse foi o tempo entre eu sair, lembrar que havia deixado o documento que tinha de apresentar ao banco, droga, o documento, esqueci totalmente dele – ela praguejou interrompendo a narrativa.- puta merda, hoje era o ultimo dia.

O homem parado próximo a porta se manteve calado, mas ergueu uma sobrancelha ao ouvi-la praguejar de uma forma nada feminina.

- Foco Flor, um assunto de cada vez. – Rafaela pediu no fone de ouvido – primeiro o que aconteceu entre você e o Cássio, depois a gente pensa como resolver o problema do banco.

Maria Flor respirou fundo, o homem se preparou pra pigarrear anunciando sua presença, porém ela foi mais rápida e recomeçou a ladainha de reclamações, no inicio ele achou que ela falava sozinha enquanto mexia em porções de terra dispostas em vários vasos, mas foi quando identificou o fone pendurado na orelha esquerda.

- Pois bem – ela recomeçou – foram dez minutos, voltei para casa para pegar o documento e dei de cara com o Cássio na nossa cama com a Renata, sabe a minha vizinha do 52? Eles estavam enroscados na nossa cama, não bastava ser na nossa casa, tinha que ser na nossa cama? Tudo bem, nosso namoro não ia lá às mil maravilhas, mas as pessoas decentes terminam a relação e partem para outra em outro lugar, o canalha desgraçado ta pegando a minha vizinha? Sabe quantas vezes cruzo com aquela vaca no prédio? Tenho grandes chances de vê-los atracados no elevador, só de pensar nisso tenho vontade de cometer um assassinato – ela sabia que dizia coisas absurdas e desconexas, mas estava pouco se importando, precisava desabafar. – odeio os homens, são canalhas e traidores, umas doninhas, víboras com pele de cordeiro, quer saber? Amanhã vou à igreja, me tornarei leiga consagrada, nada mais de homens na minha vida, a castidade será meu objetivo de vida, vou tocar meu negócio e me dedicar à oração e a penitência... eu queria poder ter coragem suficiente para me vingar dele, eu posso contratar um garoto de programa, o mais lindo que encontrar e vou ao restaurante preferido dele e esfrego o bonitão na cara dele o que acha?

- Antes ou depois do voto de castidade? – Rafaela perguntou sem conseguir disfarçar o quão divertida estava a falta de coerência dos pensamentos da amiga.

- Você não está ajudando sabia? – Maria Flor protestou, porém antes que ela pudesse falar mais alguma coisa um pigarrear se fez ouvir na loja, ela se virou e se viu olhando para um homem elegantemente vestido.

- O que foi isso? Tem alguém com você? – Rafaela perguntou do outro lado.

- O sino não tocou... – foi o que conseguiu dizer, sentia-se mortificada com a possibilidade do estranho ter ouvido algo de sua conversa. – Como entrou aqui?– perguntou.

- Pela porta. – Miguel respondeu apontando para única entrada, claro, eliminando as janelas. Ela tinha um rosto delicado com feições doces, o cabelo negro eram curtos, tinham um corte moderno, desfiado nas pontas. Os olhos estavam levemente irritados denunciando que havia chorado. Não era uma mulher alta, devia medir por volta de 1.60 de altura e como estava atrás do balcão não tinha como avaliá-la, mas o pouco que via, o agradava.

- Se tivesse entrado pela porta o sino teria tocado. – ela teimou.

- Está louca? – Rafa ralhou no fone de ouvido – é um cliente, não está em condições de destratar clientes. – a chamou a razão.

Miguel não precisou adivinhar que a pessoa do outro lado da linha havia chamado a atenção da jovem, o tom rubro que ganhou seu rosto o denunciava.

Mortificada Maria Flor pigarreou e ergueu a cabeça. Agiria com dignidade, pensou decidida.

- O que deseja? – ela perguntou altiva.

Ele quase sorrira ao vê-la arrebitar o narizinho delicado e se dirigir a ele com a postura régia, como a rainha daquele mundo de cor e cheiros diversos, o lugar era um banquete aos sentidos.

Maria Flor pedia a Deus que ele não tivesse ouvido sua conversa, porém no olhar o homem trazia um misto de simpatia e compaixão que a fez desejar que um buraco se abrisse para ela se enterrar viva.

- Eu preciso de flores. – ele respondeu e a viu erguer uma das sobrancelhas,
muito parecido a seu gesto momentos antes, questionando sua sanidade, quase a
ouvia chamá-lo de idiota.

Jura? Numa floricultura? Achei que estivesse aqui a procura de presunto!

Idiota! – ela pensou, porém exibiu seu melhor sorriso e perguntou – Tem alguma preferência?

- Preferência? – Qual era a flor preferida de sua mãe? – Na verdade não, tem que ser bonita.

Que tipo de exigência era essa? – ela pensou.

- Todas as flores são belas. – ela comentou com o sorriso congelado no rosto – é para alguma ocasião especial? – perguntou para avaliar que tipo de flor poderia oferecer, pelo terno que ele usava, dinheiro não era problema.

- São para a minha mãe, hoje – ele se interrompeu ao ver a expressão de indignação na face da moça.
Aquilo foi o pingo d´água que faltava no dia dela!

- Não disse que os homens são todos uns idiotas? – disse se dirigindo a amiga que só pode gemer antes dela se dirigir ao desconhecido – Sabe senhor, hoje eu tive um dia realmente ruim, graças a um da sua raça, e não estou aqui para ser feita de idiota, não o conheço, não sei nada sobre sua vida, não vou julgá-lo, agora entrar sorrateiramente na minha loja, nessa chuva torrencial, quase às oito da noite, olhar na minha cara e dizer descaradamente que veio comprar flores para mãe é ofender minha inteligência. – ela o mirou de cima a baixo – ninguém visita a mãe tão bem vestido assim – ela ignorava os gritos de Rafaela do outro lado da linha – então, vamos a verdade:
 
- não conseguia parar – você quer comprar flores para uma amante ou para alguém que quer transformar em amante? – perguntou com as mãos apoiadas no balcão.

Miguel olhava para a pequena florista boquiaberto. Entrar sorrateiramente?

Ele entrara pela porta! Chuva torrencial? Nem estava chovendo tanto assim!!

Entrei no mundo de Oz? – se perguntou entre ofendido e divertido, sem saber exatamente o porquê do segundo sentimento, nunca fora tão mal tratado como consumidor na vida.

- Acho que é para alguém que quer levar para cama – ela mesma respondeu – não se daria a tanto trabalho por uma mulher que já fosse sua amante.

- Estamos tendo um mal entendido aqui. – ele retorquiu aborrecido.

- É mesmo Don Juan Marco? – ela o provocou, sentia tanta raiva dele naquele momento e sequer conhecia o sujeito.
- Nem todos os homens são iguais sabia? – ele perdeu a paciência – alguns de nós são decentes e não levam vizinhas para a mesma cama em que deitam com a namorada.

A dor que brilhou nos olhos dela o fez arrepender-se das palavras, mas quando preparava o pedido de desculpas viu os olhos castanhos arderem com uma emoção muito conhecida: raiva.

- Esse seu discurso é o mais manjado que existe sabia? Sabe qual a diferença entre você o canalha do Cássio? O preço das roupas.

- Quem é Cássio? – ele perguntou no mesmo tom irritado.

- Meu ex – namorado traidor, o canalha que deitou com a vaca da minha vizinha e sabe o que é pior?! É ter que admitir que ela seja mais bonita, mais magra e definitivamente loira, o que acontece com vocês homens que não resistem a uma mulher loira de bunda grande? E daí que meu cabelo é escuro e curto, minha bunda não é enorme e peso mais que ela? Sou inteligente e independente e isso deveria contar alguma coisa, ou não? – perguntou com a voz elevada e com os olhos queimando.

- Qual o problema com seu peso? – perguntou tão irritado quanto ela.

Porque ele estava discutindo com uma desconhecida?

- Ah por favor! – ela bufou – vocês adoram mulheres que vestem trinta e seis e usam cabelos loiros até a cintura.

Ele era um advogado, e um dos melhores. O jurista nele não admitia perder uma discussão por mais absurda que fosse.

- Vocês é muita gente moça! Alguns de nós adoram curvas, sabia?

Generosas curvas podem deixar alguns homens malucos.

- É mesmo?! – ela devolveu a provocação – Quantos conhece com essa preferência? – ela o desafiou.
Ele quase respondeu “eu”, mas optou por outra tática.

- Tenho um amigo que tem esse perfil, ele está solteiro, posso dar o telefone da loja a ele, ele liga e vocês podem marcar aquela vingança da qual falava ao telefone.

Ela abriu a boca para uma resposta malcriada, mas não soube o que responder, ficou sem palavras e de repente tomou consciência do quão absurda era aquela situação.

- Esse cara é um idiota e se não quiser sair com meu amigo pode sair comigo, prometo fazer o meu melhor para deixar o sujeito desesperado com o que perdeu. – disse charmoso e ganhou um tímido sorriso dela que ignorou o UAU da amiga que continuava ouvindo a conversa dos dois.

- Desculpe tudo isso. – ela disse ainda mais humilhada que antes – podemos começar de novo? – pediu timidamente esperando que ele a deixasse falando sozinha.

- É obvio. – Miguel respondeu, ainda precisava das flores para a mãe e desejava fazê-la sorrir sem entender bem o porquê.

Ela pigarreou novamente ganhando coragem - Boa noite, em que posso ajudá-lo?

- Boa noite - ele respondeu e passou os olhos pela loja como se tivesse acabado de entrar, a gentileza do gesto a fez sorrir de verdade – Hoje é o aniversário da minha mãe e gostaria de surpreendê-la, o que sugere?

Ela olhou desconfiada para ele.

- Estou sendo sincero, juro. – disse de forma teatral, com uma mão sobre o peito. – estou a caminho do jantar de aniversário dela, por isso estou tão bem vestido e preciso realmente de sua ajuda, nos últimos anos ela ficou realmente sentida por minha secretária comprar o presente dela, hoje queria muito fazê-la sorrir ao invés do olhar condescendente que ela me deu o ano passado. – omitiu o sermão.

- Você manda sua secretária comprar o presente para sua mãe? Que horror!

– ela estava realmente chocada, ele notou, mas não se deixou abalar.

- Por isso estou aqui, quero comprá-lo pessoalmente. – ele estava relaxado e olhava diretamente em seus olhos, era um homem que dizia a verdade.

Ela respirou fundo.

- Qual a flor favorita da sua mãe? – ela perguntou.

- Não faço a menor ideia. – disse sincero acreditando que ela faria aquela expressão chocada novamente, porém ela sorriu, um sorriso franco de quem estava acostumada a esse tipo de resposta.

- Ok, então feche os olhos. – ela pediu.

- Como? – ele acreditou não ter ouvido direito.

- Feche os olhos, respire fundo e me diga qual a lembrança mais antiga que tem da sua mãe. - ela pediu mais uma vez – isso funciona acredite. – disse divertida diante da expressão de incredulidade na face dele.

Mesmo relutante ele fez o que ela pediu, afinal o que teria a perder?

- Então me diga o que vê. – a voz dela era suave, quase sussurrada.

E surpreendendo a si mesmo narrou à lembrança que não sabia que possuía, devia ter uns cinco anos, estava com a mãe no imenso jardim da casa dos pais, ela conversava com o jardineiro e apesar dos protestos do funcionário, ela insistia em cuidar pessoalmente de alguns dos canteiros preferidos, lembrava dela colhendo Uma Flor no meu caminho flores brancas, suaves de cheiro bom e levando para casa, os vasos da casa, agora ele lembrava, sempre tinham aquelas flores, e o cheiro era tão familiar, tão antigo quanto ele podia recordar e então ficou claro, o perfume da mãe, sua mãe cheirava a lírio, fresco, recém colhido, não por usar um perfume com esse aroma e sim por sempre estar entre eles no jardim.

- Sua mãe deve ser uma mulher muito elegante, o lírio é uma flor elegante, de porte régio, altivo. – ela disse assim que ele abriu os olhos. – Espere um minuto, tenho algo perfeito para ela. – ela saiu por uma porta que até aquele momento ele não havia notado e em seguida voltou, trazia nas mãos o vaso mais bonito que ele já vira e plantado nele três lírios que o fizeram imediatamente pensar na mãe.

- O que acha? – ela perguntou, no olhar trazia um brilho divertido, confiante.

- É perfeito. – ele estava impressionado e foi quando teve outra ideia. – Espere, preciso de sua opinião em algo. – disse e pegou o celular, ao conversar com o motorista descobriu que ele já estava na segunda volta pelo quarteirão. - Já  volto, nem ouse fechar a loja. – e antes que ela pudesse questionar se foi.

O toque do telefone em seu ouvido a assustou e a fez lembrar-se da amiga esquecida na ligação.

- Chego ai em dez minutos no máximo, se puder evitar matar seus clientes eu agradeço. – Rafaela disse e desligou, ela ainda estava sorrindo da amiga quando ele retornou com uma linda caixa nas mãos.

- Quero sua opinião sobre este presente. – disse e abriu a caixa.

Ela sorriu ao ver a linda echarpe de seda, quase transparente, uma peça única, exclusiva, feita para uma mulher chique, refinada.

- E então, acha que ela vai gostar? – a voz dele denunciava o quão importante era uma opinião sincera naquele momento.

- Ela vai adorar. – Maria Flor respondeu e ele respirou fundo, aliviado. – mas vai saber que não foi você quem comprou. - comentou e viu a expressão desanimada ganhar o rosto moreno.

- Por quê? – ele quis saber.

- Porque é o presente certo, da cor certa, perfeito demais entende?

- Não. – foi sincero.

- Nós, filhos, sempre erramos os presentes, compramos algo que gostaríamos de ver nossa mãe usando, geralmente algo que ela jamais usaria, ou pelo modelo ou pela cor, ou pela utilidade, não sei se me faço entender.

- De jeito nenhum. – ele respondeu e arrancou um riso delicioso dela.

- A gente sempre faz escolhas erradas que fazem nossos pais rirem, é assim que funciona.

- Esta me dizendo que ela não vai acreditar que eu comprei os lírios?

- Não, esse presente ela saberá que você comprou.

- Como? – perguntou desconfiado.

- Pela expressão orgulhosa em seu rosto por ter feito isso.

Ele apenas olhou para ela por alguns instantes, como ela pudera conhecer tanto dele em tão pouco tempo?!
 
Maria Flor não fugiu do olhar penetrante dos olhos negros do homem a sua frente, o silêncio a fez consciente do barulho da chuva e de que o fluxo de carros havia diminuído bastante, a fez consciente de que estava sozinha com um completo estranho a noite em sua loja, um desconhecido alto, moreno e de olhos negros, de postura orgulhosa, arrogante e de repente se sentiu intimidada.

Miguel notou a sutil mudança da postura relaxada, para defensiva e se perguntou o que teria feito a pequena mulher ter medo dele.

- Quanto lhe devo? – ele perguntou já tirando a carteira do bolso do paletó.

- É cortesia da casa. – ela respondeu entregando o vaso a ele.

- Eu posso pagar por ele.

- Eu sei que pode pagar, mas não quero cobrar, tratei você muito mal, esse é meu pedido de desculpas.

- Eu aceito desde que aceite jantar comigo para aquela vingança.

Nossa, ele sabia ser charmoso quando queria, ela pensou encantada pela mudança nele.

- Não posso aceitar o jantar, foi uma ideia ridícula, o Cássio me conhece e saberia que é armado, no final das contas seria ainda mais humilhante.

Ele começava a odiar esse sujeito e quando ele odiava alguém...

- Tem certeza? – perguntou charmoso.- Adoraria mostrar a ele o que perdeu. – não tinha ideia do porquê ele se importava tanto com aquela mulher desconhecida.

- Absoluta, já esgotei minha cota de absurdos por uma vida. – eles sorriram juntos.

- Obrigada. – ele respondeu segurando o vaso de lírios.

- Eu que agradeço por não ter ficado zangado comigo, sua mãe vai adorar.

- Adeus.

- Adeus.

Ela o viu deixar a loja, tinha um caminhar seguro, confiante e ombros largos que faria qualquer mulher babar, menos ela que estava fartas dos homens!

Sorriu de si mesma e se pegou imaginando o tipo de mulher que conquistaria um homem como aquele e sem ao menos saber o nome dele sentiu   admiração por ele se importar tanto com a mãe, como era mesmo o ditado? O homem que trata uma mulher como princesa demonstra que foi criado por uma rainha, não sabia bem o porquê, mas a maneira como ele falava da mãe, a fazia pensar nessa frase.

Ela suspirou e se forçou a voltar a realidade, aquela na qual tinha de fechar a loja e esperar a amiga, essa noite dormiria na casa dela, não tinha forças nem humor para estar cara a cara com Cássio e a vaca do 52.

Fechou a porta e as janelas, ao fechar uma das janelas viu o estranho entrar num carro importando estacionado quase em frente à loja e mais uma vez sorriu ao imaginar a expressão da mãe dele (que em sua imaginação tinha os traços moreno do filho) ao receber os lírios. Fechou a janela, desceu a persiana de madeira e se dirigiu ao caixa para encerrar as contas do dia.
 
Miguel não entrou pela porta traseira do carro como de costume, surpreendendo o motorista ocupou o banco do passageiro já estava colocando o cinto de segurança, quando se deu conta de algo importante.

- Roberto, cuide desse vaso como se sua vida dependesse dele. – pediu ao funcionário que ainda não tinha tomado seu lugar atrás do volante. – Eu já volto. - disse e num impulso pegou a echarpe e colocou no bolso do paletó.

- Sim senhor. – ele não conseguiu esconder a surpresa ao ver que patrão não conseguia deixar a floricultura.

Num passo apressado ele fez o caminho de retorno à loja, ignorando a chuva que continuava a cair. Encontrou a porta trancada e uma placa na qual estava escrito fechado, porém não se intimidou, bateu na porta com veemência, em seguida ouviu os passos dela e respirou aliviado.

- Rafaela não precisa derrubar a porta, não sou surda sabia? – Maria Flor resmungou ao abrir e ao dar de cara com o homem, dono dos lírios, ficou sem ação.

- Não nos apresentamos, não me disse seu nome. – Miguel precisava saber o nome dela, não entendia direito porque se importava com a baixinha de coração partido, mas o fazia.

Maria Flor sorriu, tampouco ele dissera o dele, pensou. Ela não respondeu somente apontou para cima, para a placa com nome do estabelecimento.

- Maria Flor? – ele perguntou sorrindo.

- Sei, não é o mais fabuloso dos nomes, mas dá para perceber de quem herdei o amor pelas flores. Herdei a loja dos meus pais, e eles deram meu nome a ela, o letreiro é dessa época.

- Não existe nome mais perfeito para a dona de uma floricultura – ele respondeu Não era verdade, mas antes que ela pudesse discordar do comentário estava sendo beijada por ele, no inicio o beijo era suave quase reverente...

Sentia como se todos os seus sentidos tivessem sido invadidos por aquele homem, ele cheirava a madeira e chuva, as mãos deles acariciam suas costas num movimento sensual e irresistível e quando ela cedeu abrindo os lábios, permitindo o acesso de sua língua se perdeu num mundo de sensações nunca antes experimentadas.

Ele sabia que não devia tê-la beijado, mas quando a viu à porta aberta quase ficara sem fala, ela usava uma calça jeans que delineava as deliciosas curvas de seu corpo, ela tinha seios cheios, não eram grandes, na verdade tinham o tamanho perfeito, não conseguia acreditar que não os houvesse notado antes... sentiu o corpo reagir a proximidade e quando ela sorriu seu cérebro deixou de funcionar, ela era a coisa mais fofa que ele tinha visto e seu único pensamento era dar algo bom para ela pensar, fazer com que a traição doesse um pouco menos, o que ele não contava era ser envolvido pelo perfume delicioso que emanava do corpo dela, ela tinha a boca mais saborosa que ele havia beijado e quando seu ataque mudou da boca para o pescoço delicado de pele aveludada, a sentiu ceder e teve realmente que segurá-la, o abandono de Maria Flor era tão delicioso que o fez perder a razão.
 
Sem deixar de beijá-la, os fez entrarem na loja, bateu a porta com o pé e a encostou contra ela. Ela tinha a pele tão macia, cheirosa e o fato de estar úmida da breve exposição à chuva a fazia ainda mais desejável... Fazia uns sons tão excitantes em respostas as suas carícias que a única coisa que pensava naquele momento era em conseguir uma cama.

Maria Flor sabia que em algum lugar da sua mente estava a noção de aquilo que estava acontecendo estava errado, ela acabara de romper com um homem por quem tinha acreditado estar apaixonada, um homem que nunca conseguira despertar as deliciosas sensações que esse desconhecido acordara... pelo amor de Deus não sabia nem como era o nome dele!

Aquilo que acontecia entre ele tinha que ser errado, mas tudo era tão intenso, as sensações eram fortes demais para serem abandonadas, nunca se sentira tão feminina, sensual, mulher... ela precisava disso, queria isso com todo seu corpo e sua alma e foi quando ouviram o toque de celular e a magia se quebrou.

- Droga. – ele praguejou em seu pescoço, ofegante e decididamente excitado. – Me desculpa. – o toque continuou insistente, ele atendeu sem soltá-la ou se afastar. – O que é? – quase gritou ao atender a ligação para ouvir a voz do irmão mais novo que queria saber por onde ele andava, estava mais que atrasado para o jantar - Cara aconteceu um imprevisto, acho que não consigo chegar a tempo. – os berros do irmão se fizeram ouvir além do celular, a pequena em seus braços tentava se afastar e decididamente não concordava com sua decisão de faltar ao aniversário de sua mãe. A vida, às vezes, era decididamente uma merda, ele pensou e a permitiu afastar-se.

Miguel realmente estava balançado, tinha algo acontecendo entre eles, mas ela não estava pronta e no dia seguinte ele embarcaria pela manhã aos EUA e voltaria somente na semana seguinte. Merda! Praguejou mais uma vez.

- Seu passaporte está em dia? – ele perguntou sem ao menos ponderar seu convite, dane-se a razão, ele a queria.

- Como? – ela perguntou estupefata – é fiscal da alfândega ou coisa assim?

Ela não conseguia respirar direito, muito menos pensar.

Ele se aproximou segurou em seu rosto e a fez olhar para ele.

- Preciso me ausentar do país durante uma semana e esse é o tempo que dou para você acertar as coisas com esse idiota. – optou por dar espaço, não queria que ela imaginasse que ele fosse algum tipo de psicopata.

- Esta falando do Cássio? – ela realmente não conseguia pensar.

- Estou falando que quero você para mim. – ele declarou e a beijou novamente, um beijo de posse, ele a marcava como dele. – Uma semana. – disse e se foi sem olhar para trás porque se o fizesse... não conseguiria.

Um fino assovio a chamou de volta a realidade.

- Uau - Rafaela que tinha entrado pelos fundos da loja em algum momento não escondia o quanto estava surpresa e divertida com a cena. – Aquilo foi um beijo? – perguntou.
 
- Não. – Maria Flor respondeu ainda entre ofegos – Foi o beijo. - e enquanto mirava a porta pela qual ele saíra se deu conta que o homem desconhecido não dissera seu nome.

- O que é isso? – Rafaela pegou apontou para a calça dela, Maria Flor tocou seu traseiro procurando algo errado e foi quando sentiu o tecido meio enfiado num dos bolsos traseiro da calça, porém o comprimento fazia o tecido de seda descer por sua perna e tocar o chão, ela puxou e reconheceu a echarpe caríssima.

- Isso é seda? Rafaela perguntou ao tocar o tecido – quero dizer, pura seda?

Maria Flor não respondeu, estava imersa nas lembranças dos beijos enquanto acariciava o tecido.

- Ele esta dizendo para você que vai voltar. – Rafaela opinou.

- Isso é loucura – ela sussurrou – eu sequer sei como ele se chama. – seu coração ainda batia descontrolado, ainda não conseguia acreditar que o bonito desconhecido a havia beijado com tanta fome, tanta paixão. – Isso foi real? – ela perguntou à amiga.

Rafaela riu, uma pergunta dessa só poderia vir de Maria Flor.

- Esse tipo de coisa não acontece a mulheres comuns como eu. – ela argumentou.

- A cena que eu presenciei e essa echarpe de matar, dizem o contrário amiga, eu detesto ser a pessoa que tem que lhe trazer para terra, mas tem o caixa e uma loja para fechar, depois a gente vai comer em algum lugar legal e encher a cara para esquecer os homens nojentos.

Maria Flor respirou fundo ao pensar no confronto com Cássio na manhã seguinte.

- Um brinde a isso. – disse ao depositar a linda echarpe no balcão.

Continua....

Apresentando o conto: Uma flor em meu caminho

Este conto será postado em duas partes, e sendo que na segunda parte poderá ser encontrado em nossa biblioteca hétero.
Stein Rood

Nota da Autora


Estava assistindo ao filme Meu Querido Presidente, quando a dificuldade do homem mais poderoso do mundo em comprar flores para a namorada fez minha mente divagar...
E se... (É assim que nascem as histórias que nós escritoras insanas concebemos)
Foi assim que nasceu a história de Maria Flor e Miguel.
Ele num impulso decide entrar numa floricultura que já deveria estar fechada e lá, entre flores e vasos encontra algo muito mais precioso...
Se você flagrasse seu namorado te traindo com a vizinha gostosa logo pela manhã, como acredita que terminaria o seu dia?
Para saber, você vai ter que ler essa história curtinha que fala sobre encontrar o amor onde menos se espera...
Nina Reis

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Apresentação - Nina Reis

Amigos,
Estamos dando boas vindas a talentosa Escritora Nina Reis que vai compartilhar em nosso blog seus lindos Livros e Contos.
Seus livros publicados podem ser adquiridos no site da Amazon.com.
Com certeza, vale a pena conferir.

 E aqui no blog já estaremos disponibilizando estes dois contos:
Imperdível!!!
 
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