Poema do Homem Só
Sós,
Irremediavelmente sós,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
E ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
Quer se grite ou não se grite,
Nenhum dar-se de outro se refracta,
Nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
Sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
Sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
Sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
Dão-se os olhos, dão-se os dedos,
Bocetas de mil segredos
Dão-se em pasmados compassos;
Dão-se as noites, e dão-se os dias,
Dão-se aflitivas esmolas,
Abrem-se e dão-se as corolas
Breves das carnes macias;
Dão-se os nervos, dá-se a vida,
Dá-se o sangue gota a gota,
Como uma braçada rota
Dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
Que no silêncio concreto,
Este oferecer-se de dentro
Num esgotamento completo,
Este ser-se sem disfarce,
Virgem de mal e de bem,
Este dar-se, este entregar-se,
Descobrir-se, e desflorar-se,
É nosso de mais ninguém.
Não sendo este um dos poemas mais conhecidos do autor,
foi o escolhido por mim a reescrever no hoje, não sendo eu sozinho, reescrevo-o
contigo…
Poema a um Homem Sozinho
Só,
Irremediavelmente só,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por ti
E ninguém te conhece.
Os que passam,
Os que te olham de lado,
Os que ainda falam:
Sai daqui…
Essa solidão desnuda,
Quer se veja, ou se tape,
Quer se peça, se despeça,
Ninguém para, a conversar…
Quem te sente, homem doente?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te escuta, homem que fala?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te ajuda, quem te mente?
Ninguém nem mesmo eu…
Dão-se esmolas, são tesouros,
Dão-se sopas e cobertores,
Dão-se roupas, e comprimidos
Mas ninguém te tira as dores,
Dão-se gritos, envergonhados,
Sem abrigo, desabrigados,
Dá-se tudo e nada tens!
Mas esse teu íntimo secreto
Que no silêncio desesperas,
Sentado enquanto esperas
Num esgotamento completo,
Este ser-se sem disfarce,
Um homem sozinho desenlace,
É teu, só teu de mais ninguém.
Alberto Cuddel



Há uma tristeza marcante na forma como escreveu.
ResponderExcluirAchei este tributo muito bem feito.
Parabéns!