Capitulo
1
-Ultima chamada, embarque com destino a São Paulo Brasil
no portão 6.
Não ouvi nenhuma das chamadas anteriores, devia estar no
meio dos meus pensamentos, não sei por que aceitei voltar, detesto aeroportos, é
um caos.
Chego ao balcão de embarque e entrego meu cartão, a moça
confere meus documentos e me encaminha para a primeira classe, sim primeira
classe a empresa que trabalho esta pagando, e sabem que eu sou excêntrica e
valiosa por isso não se opuseram a pagar passagem de primeira classe.
Sento-me na poltrona e coloco o sinto, olho pela janela,
e me perco nos meus pensamentos, que me levam a lembrança mais longínqua da
minha infância.
Meu aniversario de três anos, meus pais já eram
separados, e eu já havia operado o coração, dois irmãos da parte do meu pai
ainda moravam conosco, bem como dois irmãos da parte da minha mãe.
Depois dessa lembrança, só me vem o enterro da minha mãe,
ate hoje não quis saber como ela morreu, na verdade quando me contaram da sua
morte, foi um alivio, não me entenda mal, mas eu era uma pessoa extremamente
tímida e isolada do mundo, eu era o oposto de todos os irmãos de ambas as
partes.
Minha mãe me teve com quarenta anos, eu sou temporona,
acho que e assim que fala, ou raspa do tacho, bem não sei, ela veio da Itália
com o primeiro marido e a sua filha primogênita e grávida da segunda, minhas
irmãs Magda e Margarida, depois de uns anos no Brasil, nasceu o Mauricio, não
sei o que aconteceu com o pai dos meus irmãos, mas sei que anos mais tarde
conheceu meu pai e ficou grávida de mim, a ultima filha dela Melania, mas todos
me chamam de Mel.
Voltando, o alivio foi por não ter mais que ouvir seus
gritos e vê-la gesticular tanto, ou falar metade em português e metade em
napolitano, como disse eu era tímida e isolada e aos cinco anos, já lia
escrevia e tinha meu próprio mundo, o modo como falava gritando me assustava e
ainda me assusto quando gritam próximo a mim, eu me isolava sempre, ela nunca
soube como conversar comigo, por isso me senti aliviada, quando voltamos do
velório, meu pai e meus irmãos se reuniram na sala e começaram a conversar, não
sei o que diziam ou o motivo de brigarem, fui para meu quarto no meu mundo, ler
um livro de matemática, os números me acalmam, e me dão apoio, me deixam sempre
feliz.
Não sei quanto tempo passou, e minha irmã a Magda veio me
chamar, sempre achei que tínhamos uma ligação especial, nos duas, ela tem vinte
e dois anos a mais do que eu, então sempre a vi como uma adulta e não irmã.
Estavam todos sentados e calmos na sala, e o amigo de
infância do Mauricio também estava o Ricardo, os dois dividiam um apartamento
desde os dezoito anos, e sempre me chamavam de princesa de copas, nunca
entendi, não sou ruiva, pelo contrario loira de olhos verdes.
-Princesa, você sabe que a mamãe não vai voltar, não é.
Lembro-me de pensar – Ainda bem – mas fiz que sim com a
cabeça.
-Nos estamos tentando decidir onde e com quem você vai
morar... - foi ai que eu tive que intervir.
-Eu não quero mudar, não gosto de mudar, e você e o Ricki
podem morar comigo.
Todos se entreolharam eu não entendi, mas não queria
mudar de cidade, eu sabia que meu pai não morava em são Paulo e sim em Belo
Horizonte, era delegado, e por mais que a minha madrasta fosse boa, não queria
mudar, na verdade detesto mudanças.
E foi assim, que meu irmão o Ni e o Ricki vieram morar
comigo e cuidar de mim, foi à primeira vez que me senti amada e protegida.
Quando tinha sete anos, o Ni foi chamado na escola, por
que eu não prestava atenção, e não tinha relacionamento social, pediram que me
levassem num neurologista, pois acharam que eu era autista.
Voltamos para casa com um diagnostico bem diferente, eu
na verdade não me interessava por que já sabia o que a professora estava
ensinando, e isso era chato. O medico disse que eu era um Gênio, e que poderia
alcançar coisas como o Einstein.
Voltamos mais algumas vezes no medico, e fizeram testes,
onde foi comprovado que eu tinha na época um Q.I de 109 de um adulto muito
inteligente, aos sete anos.
O medico e meus irmãos me levaram aos Estados Unidos, foi
a primeira vez que mostrei os sinais de TOC (transtorno compulsivo obsessivo),
no aeroporto, com o caos, pessoas por todos os lados e a confusão me deixaram
cega e fiquei sentada e não queria sair.
Bem uma vez que estávamos em Massachusetts fui testada
numa universidade chamada MIT (Massachusetts
Institute of Technology), e comprovaram o que já sabiam. Deram
orientações ao medico e ao Mauricio, e voltamos para casa.
Quando estava com doze anos, aqui no Brasil, não havia
possibilidade de cursar a universidade nem dar mais continuidade no meu
desenvolvimento acadêmico, mudei-me para Massachusetts, com bolsa de estudos
integral, moradia e comida inclusa, ou seja, minha família não precisaria
desembolsar nada.
O Mauricio e o Ricardo me acompanharam, e no dia que me
instalei no meu quarto individual, conheci a Laura, e o John, eram mais velhos
e muito gentis, ambos com vinte anos e ficou responsável por me mostrar tudo e
por me apresentar o programa acadêmico.
Eles sempre foram muito gentis, e os professores, ficavam
abismados com a minha capacidade intelectual, e a falta de traquejo social,
considerado uma característica comum, nas pessoas com genialidade.
Aos dezoito anos já tinha a formação e dois PHD´s (Philosophiæ Doctor), e
estava sendo contratada para desenvolver um motor na Ferrari, minha segunda
grande mudança, para Maranello na Itália, próximo a cidade de Módena, como já
sabiam que eu era excêntrica e tinha TOC todos na fabrica e no escritório foram
orientados previamente como deveriam me tratar, maluquice né, mas um erro e eu
poderia fechar na minha concha!
Bem posso dizer que a Ferrari, ou melhor, a Itália, foi o
melhor lugar do mundo, aprendi muito, e cresci como ser humano, comecei a
frequentar um psiquiatra e um psicólogo, e assim minhas obsessões diminuíram, às
vezes voltam com tudo, mas hoje aos vinte e quatro anos estou bem melhor, e sei
lidar com as situações de forma mais racional sem me fechar na concha.
-Senhoras e senhores, aqui que vos falava e o comandante,
já estamos na altura do percurso e estamos tirando o aviso dos cintos de
segurança, agradeço...
E parei de ouvir, tirei o cinto e me estiquei.
Estou voltando ao Brasil, depois de doze anos fora, e
vivendo sozinha, vou voltar para a casa que sempre morei voltar a viver com o
Ricki e o Mauricio, e isso esta me assustando muito.
Estou indo uma semana antes de começar a trabalhar, há
bem esqueci depois de três anos na Ferrari e quatro motores, eu fui contratada
pela Roll Royce na Alemanha, na divisão de turbinas de avião, e estou voltando
ao Brasil, para trabalhar na planta em São Bernardo do Campo, pois todas as
atividades direcionadas a turbinas de avião estão concentradas nessa fabrica, e
como sou a responsável o projeto estou voltando para casa.
Você se pergunta como foi parar fazendo motores, e
turbinas, sendo que você ama a matemática?
Simples, não contei, mas o Mauricio tem uma oficina de
motos e carros antigos, alem de uma loja de motos, os anos que moamos juntos,
eu vivia enfiada na oficina, e já sabia tudo de motores, então me formei, em
Engenharia automobilística, mecânica e eletrônica, fora a física que também
tenho formação.
O Ricki e formado em direito e dirige uma loja de roupas
de festas feminina, apesar de não entender nada de moda, entende de negocio, de
funcionários e é o braço direito e esquerdo do estilista.
Bem também estou voltando mais cedo, pois meu sobrinho
filho da Margarida esta se casando no próximo fim de semana e sou uma das
madrinhas e não provei o vestido ainda, sim meu sobrinho e mais velho do que
eu, ele tem vinte e seis, minha Irma casou e engravidou, ou o contrario, vai
saber aos dezoito anos.
-Senhoras e senhores, coloquem o cinto, iremos iniciar a
aterrizagem.
Nem acredito que quatorze horas de voo terminaram, pego
minha bagagem de mão, não trouxe malas, despachei tudo dias atrás, não queria
ter preocupação ou coisas perdidas.
Avisto de longe o Mauricio e o Ricardo, faz só dois meses
que me visitaram na Alemanha, mas parece uma eternidade, com eles sempre me
sentia em casa e segura.
Os abraço bem apertado, demonstrando a falta que fizeram
vamos para o carro, e somos levados ate a nossa casa, quando para na porta para
abrir o portão eu desço.
Ela e tão menor de como eu lembrava, ou era eu que era
pequena e a casa grande e agora a perspectiva mudou, nesses doze anos, não
voltei aqui, vivi a vida que eu decidi que seria a melhor, conheci pessoas,
viajei, melhorei e muito minhas habilidades sociais, só não consigo ainda ir a
boates, mas bares e shows de rock vou sempre.
Abro a porta, e tem uma faixa: “BEM VINDA DE VOLTA A
CASA.....MAGDA, MARGARIDA, MAURICIO, RICARDO, PAPAI, CAROLINA E ANDRESSA.”
Achei tão lindo, olhei a sala tudo estava mudado os móveis
a disposição, lembro-me de terem comentado que reformaram a casa, mas nunca vim
ver. Agora a casa tinha quatro suítes no andar de cima, uma sala interligada
com a cozinha e um escritório que arrumaram para mim, e na área atrás ainda
tinha a piscina e o jardim e no fundo uma edícula, com uma sala de jogos, mesa
de sinuca, xadrez, e pebolim, e píng-pong, e no andar superior era uma enorme
sala com televisão e varias almofadas e sofás, bem confortáveis, para ver filmes,
ou dormir.
Caminhei ate a área externa da piscina, e vejo minha
família ali reunida!
Um por um vem e me abraça e da às boas vindas, mas tem
gente que não conheço, e quando começa as apresentações.
-Mel esse e Douglas meu namorado. – diz minha Irma mais nova
Andressa
-Essa a Patrícia, Mel, minha namorada. – diz o Rick
mostrando uma linda moça japonesa igual a ele, mas com leves traços ocidentais.
-E esse e o nosso amigo Roberto, ele esta morando conosco
por um tempo, o prédio onde morava esta interditada, então oferecemos o quarto
vazio, espero que não se importe.
Um homem mais velho, na idade dos meus irmãos, devia ter
uns quarenta e quatro como o Mauricio, mas era lindo, nunca achei homens mais
velhos bonitos, claro que exceção ao Brad Pitt, George Clonei, mas o Roberto
fazia par com esses, quando cheguei perto para cumprimenta-lo, algo dentro de
mim acendeu, algo que nem eu sabia que existia.
-Claro que não me importo, será um prazer ter um amigo na
casa, por que esses dois são irmãos.
Todos riram da minha piada, nenhum deles me conhecia
mais, vinham me visitar, mas nunca ficou tempo o suficiente para me conhecer,
alem do mais, quando você esta de férias, as coisas são mais divertidas, por
isso se surpreenderam.
O que não foi surpresa para ninguém e o meu tom de voz
baixo quase um sussurro, mas não e que eu queira, durante a cirurgia do
coração, eu precisei ficar entubada e acabou machucando as cordas vocais, então
quando falo acima do tom, acabo machucando muito, alem de ter dores, e infecções
terríveis.
Passamos as horas agradáveis, conversando, mas sempre que
olhava para o Roberto, algo formigava, ou ficava vermelha de vergonha, nunca
fiquei assim, já conversei, com gente do mundo inteiro, já tive namorados, ou
melhor, rolos, por que nunca queria alguém tempo suficiente para me apegar.
Então resolvi contar a grande novidade que ninguém sabia,
levantei-me com um copo de champanhe na mão, e comecei.
-Bem pessoal primeiro obrigada por estarem aqui, mas
tenho uma novidade, grande o bastante para me levar a lua – rio nervoso, estava
morrendo de nervosismo – a cerca de um ano eu consegui desvendar a teoria dos Três
Corpos da Física, e ano passado ela foi comprovada, e virou uma tese, que mudou
alguns padrões da Física paliçada e teórica, e este ano eu estou concorrendo ao
Premio Nobel de Física.
Todos me olharam pasmos, um premio Nobel, e algo
inimaginável, inatingível, um sonho...continuei.
-E sou a primeira Brasileira a ter uma indicação na área
de Física e sou a primeira mulher no mundo a ter a mesma indicação.
Os olhos arregalados de todos, diziam o quanto estavam
surpresos, mas mais surpresa ainda ficou eu, com a atitude do Roberto, que ao
ver que ninguém disse nada nem se moveu, levantou-se e me abraçou bem forte.
-Mel, que maravilha de notícia, acho que digo por todos
quando digo que você e um GENIO, e que merece o prêmio, mais que os outros, PARABÉNS.
E foi uma explosão depois do comentário e todos me abraçaram
e me beijaram e uma simples comemoração virou uma festa.
Acompanhem a historia no Widbook
Acompanhem a historia no Widbook



Postar um comentário