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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nina Reis: Uma flor em meu caminho - Parte I

Início de tudo...
Naquele inicio de noite, um número incontável de veículos movimentavam-se muito lentamente, o constante buzinar era o registro de ânimos exaltados e a frustração em saber que de nada adiantaria perder a calma, pois isso não resolveria a situação, parecia contribuir ainda mais para a irritação de motoristas e passageiros. A chuva fina que caíra incessantemente durante todo o dia, tornava o já caótico transito da cidade de São Paulo, ainda pior.

Normalmente o advogado Miguel Medeiros Lins e Silva estaria alheio a tudo isso, habituado ao transito complicado da cidade, o interior do veículo possuía um modernos sistema de computação, ar condicionado e o espaço traseiro, reservado aos passageiros era a prova de som. Quando era obrigado a cruzar a cidade de carro sempre ocupava o tempo estudando os processos nos quais estava trabalhando, fazendo contatos e até vídeo conferências, mas naquela noite ele não conseguia se concentrar, não estava preocupado com o trânsito, seu motorista era habilidoso e muito competente, sabia que logo ele encontraria uma forma de fugir do congestionamento, não era isso que roubava sua paz de espírito, muito menos o dia complicado com reuniões sem fim e uma audiência com um juiz facilmente irritável, não, isso não o irritava, isso era parte da adrenalina de sua profissão, era especializado em grande corporações e direito marítimo comercial, amava o ritmo acelerado de sua vida. O motivo de estar sentindo aquele frio no estômago como se fosse um adolescente tinha nome e sobrenome: Luiza Medeiros Lins e Silva, sua mãe.

Estava a caminho da residência da família para o jantar de aniversário de sua mãe, ele a amava, não havia a menor dúvida disso, mas a mulher nos últimos anos estava empenhada em criticar seu estilo de vida e nos dois últimos aniversários ele ouvira sermões que pareciam não ter fim sobre o fato de estar ocupado demais para comprar um presente para própria mãe e delegar a missão à sua secretária,
como ela descobrira que fora Martha, sua secretária e não ele que comprara os presentes, ainda não tinha ideia... no ano anterior a secretária, a seu pedido, chegara a dizer a sua mãe, que no dia anterior ao jantar ligara para lembrá-lo de seu aniversário, como se ele pudesse esquecer, que ele saíra para comprar o presente, pois bem, foi a mãe abrir a caixa da elegante pulseira de ouro para declarar ofendida que a peça fora comprada por sua secretária e não por ele.

Esse ano ele tentou, chegara até a ir a algumas joalherias, mas no final coubera mais uma vez a Martha a compra do presente e ele estava nervoso, só de imaginar a decepção na face da mulher que lhe dera a vida, ele realmente sentia-se como um menino prestes a ser repreendido.

Merda! Ele estava com trinta e cinco anos, como as mães conseguiam isso?– se perguntou em pensamento. Desistindo de fingir estar estudando um processo, respirou fundo e contemplou a elegante caixa que repousava ao seu lado no banco traseiro e não conseguiu evitar o gemido de desânimo. Ela descobriria, ele tinha certeza. Desviou o rosto em direção à rua e o charmoso edifício antigo, ladeado por modernos arranha céus chamou sua atenção, apesar de muito antigo, parecia bem conservado e foi quando leu a placa que dizia Maria Flor, apesar de não haver maiores explicações no letreiro, a visão através das portas e janelas abertas não deixava dúvidas, era uma floricultura e uma ideia se iluminou em sua mente.

- Roberto, pare o carro. - pediu ao motorista pelo comunicador interno.

- Ele já está parado senhor. – o tom de voz divertida do motorista o fez sorrir.

- Eu já volto. – ele anunciou já deixando o carro, dessa vez sua mãe não se decepcionaria.

- Mas senhor e se o trânsito andar?

- De uma volta no quarteirão. – ele respondeu já caminhando em direção a loja não se incomodando com a chuva fina que salpicava o terno de corte impecável.

- Como assim está presa no congestionamento? – Maria Flor perguntou à amiga ao telefone, ela estava usando um fone de ouvido wireless, sempre o usava na floricultura, assim conseguia atender os clientes e trabalhar em arranjos enquanto atendia as ligações.

- Sabe, é quando tem um carro na sua frente e outro atrás e ninguém anda. – Rafaela respondeu com ironia.

- Eu sei o que é um congestionamento Rafa, o que me pergunto é como foi parar nele? - Elas conheciam ruas para evitar as avenidas principais e que dava na rua atrás da floricultura o porquê da amiga estar na Avenida Paulista é que era um mistério para ela.

Rafa bufou do outro lado da linha.

- Farei o máximo para chegar o mais rápido possível ok? Enquanto isso podemos gastar esses bônus que a operadora nos dá todo mês, o que acha?- Rafaela estava preocupada, de todos os dias que podia se atrasar num encontro com Maria Flor, ela escolhera o pior.

Esse era o pior dia da sua vida – Maria Flor pensou – Não, ela se corrigiu, o pior fora a morte de seus pais num acidente de avião anos antes, esse era o segundo pior dia, ela tinha certeza.

- Sou toda ouvidos Flor – a voz de Rafaela ecoou pelo fone de ouvido a trazendo de volta a realidade – sei mais do que ninguém o quanto você precisa desabafar.

Maria Flor respirou fundo, já havia chorado tanto pela manhã que acabara afugentando vários clientes da floricultura e tudo o que ela menos precisava era  piorar o já delicado momento financeiro que seu negócio estava passando.

Consultou o relógio, já passava das 19:40 h, devia ter fechado há quarenta minutos, mas decidira esperar por Rafaela com a loja aberta, tudo o que não precisava era estar sozinha e na penumbra, já estava deprimida o suficiente.


- Odeio os homens, todos eles. – declarou com uma veemência nascida da indignação e perdida em seu sofrimento, de costas para entrada, não ouviu o sino que indicava a entrada de mais um cliente. – São todos uns egoístas, egocêntricos, narcisistas, hedonistas e todos os “istas” negativos que puder pensar! – desabafou – como ele pode ter feito uma coisa assim comigo Rafa? – perguntou, mas não deu chance da amigar dizer qualquer coisa – Dez minutos, sabe o que são dez minutos, esse foi o tempo entre eu sair, lembrar que havia deixado o documento que tinha de apresentar ao banco, droga, o documento, esqueci totalmente dele – ela praguejou interrompendo a narrativa.- puta merda, hoje era o ultimo dia.

O homem parado próximo a porta se manteve calado, mas ergueu uma sobrancelha ao ouvi-la praguejar de uma forma nada feminina.

- Foco Flor, um assunto de cada vez. – Rafaela pediu no fone de ouvido – primeiro o que aconteceu entre você e o Cássio, depois a gente pensa como resolver o problema do banco.

Maria Flor respirou fundo, o homem se preparou pra pigarrear anunciando sua presença, porém ela foi mais rápida e recomeçou a ladainha de reclamações, no inicio ele achou que ela falava sozinha enquanto mexia em porções de terra dispostas em vários vasos, mas foi quando identificou o fone pendurado na orelha esquerda.

- Pois bem – ela recomeçou – foram dez minutos, voltei para casa para pegar o documento e dei de cara com o Cássio na nossa cama com a Renata, sabe a minha vizinha do 52? Eles estavam enroscados na nossa cama, não bastava ser na nossa casa, tinha que ser na nossa cama? Tudo bem, nosso namoro não ia lá às mil maravilhas, mas as pessoas decentes terminam a relação e partem para outra em outro lugar, o canalha desgraçado ta pegando a minha vizinha? Sabe quantas vezes cruzo com aquela vaca no prédio? Tenho grandes chances de vê-los atracados no elevador, só de pensar nisso tenho vontade de cometer um assassinato – ela sabia que dizia coisas absurdas e desconexas, mas estava pouco se importando, precisava desabafar. – odeio os homens, são canalhas e traidores, umas doninhas, víboras com pele de cordeiro, quer saber? Amanhã vou à igreja, me tornarei leiga consagrada, nada mais de homens na minha vida, a castidade será meu objetivo de vida, vou tocar meu negócio e me dedicar à oração e a penitência... eu queria poder ter coragem suficiente para me vingar dele, eu posso contratar um garoto de programa, o mais lindo que encontrar e vou ao restaurante preferido dele e esfrego o bonitão na cara dele o que acha?

- Antes ou depois do voto de castidade? – Rafaela perguntou sem conseguir disfarçar o quão divertida estava a falta de coerência dos pensamentos da amiga.

- Você não está ajudando sabia? – Maria Flor protestou, porém antes que ela pudesse falar mais alguma coisa um pigarrear se fez ouvir na loja, ela se virou e se viu olhando para um homem elegantemente vestido.

- O que foi isso? Tem alguém com você? – Rafaela perguntou do outro lado.

- O sino não tocou... – foi o que conseguiu dizer, sentia-se mortificada com a possibilidade do estranho ter ouvido algo de sua conversa. – Como entrou aqui?– perguntou.

- Pela porta. – Miguel respondeu apontando para única entrada, claro, eliminando as janelas. Ela tinha um rosto delicado com feições doces, o cabelo negro eram curtos, tinham um corte moderno, desfiado nas pontas. Os olhos estavam levemente irritados denunciando que havia chorado. Não era uma mulher alta, devia medir por volta de 1.60 de altura e como estava atrás do balcão não tinha como avaliá-la, mas o pouco que via, o agradava.

- Se tivesse entrado pela porta o sino teria tocado. – ela teimou.

- Está louca? – Rafa ralhou no fone de ouvido – é um cliente, não está em condições de destratar clientes. – a chamou a razão.

Miguel não precisou adivinhar que a pessoa do outro lado da linha havia chamado a atenção da jovem, o tom rubro que ganhou seu rosto o denunciava.

Mortificada Maria Flor pigarreou e ergueu a cabeça. Agiria com dignidade, pensou decidida.

- O que deseja? – ela perguntou altiva.

Ele quase sorrira ao vê-la arrebitar o narizinho delicado e se dirigir a ele com a postura régia, como a rainha daquele mundo de cor e cheiros diversos, o lugar era um banquete aos sentidos.

Maria Flor pedia a Deus que ele não tivesse ouvido sua conversa, porém no olhar o homem trazia um misto de simpatia e compaixão que a fez desejar que um buraco se abrisse para ela se enterrar viva.

- Eu preciso de flores. – ele respondeu e a viu erguer uma das sobrancelhas,
muito parecido a seu gesto momentos antes, questionando sua sanidade, quase a
ouvia chamá-lo de idiota.

Jura? Numa floricultura? Achei que estivesse aqui a procura de presunto!

Idiota! – ela pensou, porém exibiu seu melhor sorriso e perguntou – Tem alguma preferência?

- Preferência? – Qual era a flor preferida de sua mãe? – Na verdade não, tem que ser bonita.

Que tipo de exigência era essa? – ela pensou.

- Todas as flores são belas. – ela comentou com o sorriso congelado no rosto – é para alguma ocasião especial? – perguntou para avaliar que tipo de flor poderia oferecer, pelo terno que ele usava, dinheiro não era problema.

- São para a minha mãe, hoje – ele se interrompeu ao ver a expressão de indignação na face da moça.
Aquilo foi o pingo d´água que faltava no dia dela!

- Não disse que os homens são todos uns idiotas? – disse se dirigindo a amiga que só pode gemer antes dela se dirigir ao desconhecido – Sabe senhor, hoje eu tive um dia realmente ruim, graças a um da sua raça, e não estou aqui para ser feita de idiota, não o conheço, não sei nada sobre sua vida, não vou julgá-lo, agora entrar sorrateiramente na minha loja, nessa chuva torrencial, quase às oito da noite, olhar na minha cara e dizer descaradamente que veio comprar flores para mãe é ofender minha inteligência. – ela o mirou de cima a baixo – ninguém visita a mãe tão bem vestido assim – ela ignorava os gritos de Rafaela do outro lado da linha – então, vamos a verdade:
 
- não conseguia parar – você quer comprar flores para uma amante ou para alguém que quer transformar em amante? – perguntou com as mãos apoiadas no balcão.

Miguel olhava para a pequena florista boquiaberto. Entrar sorrateiramente?

Ele entrara pela porta! Chuva torrencial? Nem estava chovendo tanto assim!!

Entrei no mundo de Oz? – se perguntou entre ofendido e divertido, sem saber exatamente o porquê do segundo sentimento, nunca fora tão mal tratado como consumidor na vida.

- Acho que é para alguém que quer levar para cama – ela mesma respondeu – não se daria a tanto trabalho por uma mulher que já fosse sua amante.

- Estamos tendo um mal entendido aqui. – ele retorquiu aborrecido.

- É mesmo Don Juan Marco? – ela o provocou, sentia tanta raiva dele naquele momento e sequer conhecia o sujeito.
- Nem todos os homens são iguais sabia? – ele perdeu a paciência – alguns de nós são decentes e não levam vizinhas para a mesma cama em que deitam com a namorada.

A dor que brilhou nos olhos dela o fez arrepender-se das palavras, mas quando preparava o pedido de desculpas viu os olhos castanhos arderem com uma emoção muito conhecida: raiva.

- Esse seu discurso é o mais manjado que existe sabia? Sabe qual a diferença entre você o canalha do Cássio? O preço das roupas.

- Quem é Cássio? – ele perguntou no mesmo tom irritado.

- Meu ex – namorado traidor, o canalha que deitou com a vaca da minha vizinha e sabe o que é pior?! É ter que admitir que ela seja mais bonita, mais magra e definitivamente loira, o que acontece com vocês homens que não resistem a uma mulher loira de bunda grande? E daí que meu cabelo é escuro e curto, minha bunda não é enorme e peso mais que ela? Sou inteligente e independente e isso deveria contar alguma coisa, ou não? – perguntou com a voz elevada e com os olhos queimando.

- Qual o problema com seu peso? – perguntou tão irritado quanto ela.

Porque ele estava discutindo com uma desconhecida?

- Ah por favor! – ela bufou – vocês adoram mulheres que vestem trinta e seis e usam cabelos loiros até a cintura.

Ele era um advogado, e um dos melhores. O jurista nele não admitia perder uma discussão por mais absurda que fosse.

- Vocês é muita gente moça! Alguns de nós adoram curvas, sabia?

Generosas curvas podem deixar alguns homens malucos.

- É mesmo?! – ela devolveu a provocação – Quantos conhece com essa preferência? – ela o desafiou.
Ele quase respondeu “eu”, mas optou por outra tática.

- Tenho um amigo que tem esse perfil, ele está solteiro, posso dar o telefone da loja a ele, ele liga e vocês podem marcar aquela vingança da qual falava ao telefone.

Ela abriu a boca para uma resposta malcriada, mas não soube o que responder, ficou sem palavras e de repente tomou consciência do quão absurda era aquela situação.

- Esse cara é um idiota e se não quiser sair com meu amigo pode sair comigo, prometo fazer o meu melhor para deixar o sujeito desesperado com o que perdeu. – disse charmoso e ganhou um tímido sorriso dela que ignorou o UAU da amiga que continuava ouvindo a conversa dos dois.

- Desculpe tudo isso. – ela disse ainda mais humilhada que antes – podemos começar de novo? – pediu timidamente esperando que ele a deixasse falando sozinha.

- É obvio. – Miguel respondeu, ainda precisava das flores para a mãe e desejava fazê-la sorrir sem entender bem o porquê.

Ela pigarreou novamente ganhando coragem - Boa noite, em que posso ajudá-lo?

- Boa noite - ele respondeu e passou os olhos pela loja como se tivesse acabado de entrar, a gentileza do gesto a fez sorrir de verdade – Hoje é o aniversário da minha mãe e gostaria de surpreendê-la, o que sugere?

Ela olhou desconfiada para ele.

- Estou sendo sincero, juro. – disse de forma teatral, com uma mão sobre o peito. – estou a caminho do jantar de aniversário dela, por isso estou tão bem vestido e preciso realmente de sua ajuda, nos últimos anos ela ficou realmente sentida por minha secretária comprar o presente dela, hoje queria muito fazê-la sorrir ao invés do olhar condescendente que ela me deu o ano passado. – omitiu o sermão.

- Você manda sua secretária comprar o presente para sua mãe? Que horror!

– ela estava realmente chocada, ele notou, mas não se deixou abalar.

- Por isso estou aqui, quero comprá-lo pessoalmente. – ele estava relaxado e olhava diretamente em seus olhos, era um homem que dizia a verdade.

Ela respirou fundo.

- Qual a flor favorita da sua mãe? – ela perguntou.

- Não faço a menor ideia. – disse sincero acreditando que ela faria aquela expressão chocada novamente, porém ela sorriu, um sorriso franco de quem estava acostumada a esse tipo de resposta.

- Ok, então feche os olhos. – ela pediu.

- Como? – ele acreditou não ter ouvido direito.

- Feche os olhos, respire fundo e me diga qual a lembrança mais antiga que tem da sua mãe. - ela pediu mais uma vez – isso funciona acredite. – disse divertida diante da expressão de incredulidade na face dele.

Mesmo relutante ele fez o que ela pediu, afinal o que teria a perder?

- Então me diga o que vê. – a voz dela era suave, quase sussurrada.

E surpreendendo a si mesmo narrou à lembrança que não sabia que possuía, devia ter uns cinco anos, estava com a mãe no imenso jardim da casa dos pais, ela conversava com o jardineiro e apesar dos protestos do funcionário, ela insistia em cuidar pessoalmente de alguns dos canteiros preferidos, lembrava dela colhendo Uma Flor no meu caminho flores brancas, suaves de cheiro bom e levando para casa, os vasos da casa, agora ele lembrava, sempre tinham aquelas flores, e o cheiro era tão familiar, tão antigo quanto ele podia recordar e então ficou claro, o perfume da mãe, sua mãe cheirava a lírio, fresco, recém colhido, não por usar um perfume com esse aroma e sim por sempre estar entre eles no jardim.

- Sua mãe deve ser uma mulher muito elegante, o lírio é uma flor elegante, de porte régio, altivo. – ela disse assim que ele abriu os olhos. – Espere um minuto, tenho algo perfeito para ela. – ela saiu por uma porta que até aquele momento ele não havia notado e em seguida voltou, trazia nas mãos o vaso mais bonito que ele já vira e plantado nele três lírios que o fizeram imediatamente pensar na mãe.

- O que acha? – ela perguntou, no olhar trazia um brilho divertido, confiante.

- É perfeito. – ele estava impressionado e foi quando teve outra ideia. – Espere, preciso de sua opinião em algo. – disse e pegou o celular, ao conversar com o motorista descobriu que ele já estava na segunda volta pelo quarteirão. - Já  volto, nem ouse fechar a loja. – e antes que ela pudesse questionar se foi.

O toque do telefone em seu ouvido a assustou e a fez lembrar-se da amiga esquecida na ligação.

- Chego ai em dez minutos no máximo, se puder evitar matar seus clientes eu agradeço. – Rafaela disse e desligou, ela ainda estava sorrindo da amiga quando ele retornou com uma linda caixa nas mãos.

- Quero sua opinião sobre este presente. – disse e abriu a caixa.

Ela sorriu ao ver a linda echarpe de seda, quase transparente, uma peça única, exclusiva, feita para uma mulher chique, refinada.

- E então, acha que ela vai gostar? – a voz dele denunciava o quão importante era uma opinião sincera naquele momento.

- Ela vai adorar. – Maria Flor respondeu e ele respirou fundo, aliviado. – mas vai saber que não foi você quem comprou. - comentou e viu a expressão desanimada ganhar o rosto moreno.

- Por quê? – ele quis saber.

- Porque é o presente certo, da cor certa, perfeito demais entende?

- Não. – foi sincero.

- Nós, filhos, sempre erramos os presentes, compramos algo que gostaríamos de ver nossa mãe usando, geralmente algo que ela jamais usaria, ou pelo modelo ou pela cor, ou pela utilidade, não sei se me faço entender.

- De jeito nenhum. – ele respondeu e arrancou um riso delicioso dela.

- A gente sempre faz escolhas erradas que fazem nossos pais rirem, é assim que funciona.

- Esta me dizendo que ela não vai acreditar que eu comprei os lírios?

- Não, esse presente ela saberá que você comprou.

- Como? – perguntou desconfiado.

- Pela expressão orgulhosa em seu rosto por ter feito isso.

Ele apenas olhou para ela por alguns instantes, como ela pudera conhecer tanto dele em tão pouco tempo?!
 
Maria Flor não fugiu do olhar penetrante dos olhos negros do homem a sua frente, o silêncio a fez consciente do barulho da chuva e de que o fluxo de carros havia diminuído bastante, a fez consciente de que estava sozinha com um completo estranho a noite em sua loja, um desconhecido alto, moreno e de olhos negros, de postura orgulhosa, arrogante e de repente se sentiu intimidada.

Miguel notou a sutil mudança da postura relaxada, para defensiva e se perguntou o que teria feito a pequena mulher ter medo dele.

- Quanto lhe devo? – ele perguntou já tirando a carteira do bolso do paletó.

- É cortesia da casa. – ela respondeu entregando o vaso a ele.

- Eu posso pagar por ele.

- Eu sei que pode pagar, mas não quero cobrar, tratei você muito mal, esse é meu pedido de desculpas.

- Eu aceito desde que aceite jantar comigo para aquela vingança.

Nossa, ele sabia ser charmoso quando queria, ela pensou encantada pela mudança nele.

- Não posso aceitar o jantar, foi uma ideia ridícula, o Cássio me conhece e saberia que é armado, no final das contas seria ainda mais humilhante.

Ele começava a odiar esse sujeito e quando ele odiava alguém...

- Tem certeza? – perguntou charmoso.- Adoraria mostrar a ele o que perdeu. – não tinha ideia do porquê ele se importava tanto com aquela mulher desconhecida.

- Absoluta, já esgotei minha cota de absurdos por uma vida. – eles sorriram juntos.

- Obrigada. – ele respondeu segurando o vaso de lírios.

- Eu que agradeço por não ter ficado zangado comigo, sua mãe vai adorar.

- Adeus.

- Adeus.

Ela o viu deixar a loja, tinha um caminhar seguro, confiante e ombros largos que faria qualquer mulher babar, menos ela que estava fartas dos homens!

Sorriu de si mesma e se pegou imaginando o tipo de mulher que conquistaria um homem como aquele e sem ao menos saber o nome dele sentiu   admiração por ele se importar tanto com a mãe, como era mesmo o ditado? O homem que trata uma mulher como princesa demonstra que foi criado por uma rainha, não sabia bem o porquê, mas a maneira como ele falava da mãe, a fazia pensar nessa frase.

Ela suspirou e se forçou a voltar a realidade, aquela na qual tinha de fechar a loja e esperar a amiga, essa noite dormiria na casa dela, não tinha forças nem humor para estar cara a cara com Cássio e a vaca do 52.

Fechou a porta e as janelas, ao fechar uma das janelas viu o estranho entrar num carro importando estacionado quase em frente à loja e mais uma vez sorriu ao imaginar a expressão da mãe dele (que em sua imaginação tinha os traços moreno do filho) ao receber os lírios. Fechou a janela, desceu a persiana de madeira e se dirigiu ao caixa para encerrar as contas do dia.
 
Miguel não entrou pela porta traseira do carro como de costume, surpreendendo o motorista ocupou o banco do passageiro já estava colocando o cinto de segurança, quando se deu conta de algo importante.

- Roberto, cuide desse vaso como se sua vida dependesse dele. – pediu ao funcionário que ainda não tinha tomado seu lugar atrás do volante. – Eu já volto. - disse e num impulso pegou a echarpe e colocou no bolso do paletó.

- Sim senhor. – ele não conseguiu esconder a surpresa ao ver que patrão não conseguia deixar a floricultura.

Num passo apressado ele fez o caminho de retorno à loja, ignorando a chuva que continuava a cair. Encontrou a porta trancada e uma placa na qual estava escrito fechado, porém não se intimidou, bateu na porta com veemência, em seguida ouviu os passos dela e respirou aliviado.

- Rafaela não precisa derrubar a porta, não sou surda sabia? – Maria Flor resmungou ao abrir e ao dar de cara com o homem, dono dos lírios, ficou sem ação.

- Não nos apresentamos, não me disse seu nome. – Miguel precisava saber o nome dela, não entendia direito porque se importava com a baixinha de coração partido, mas o fazia.

Maria Flor sorriu, tampouco ele dissera o dele, pensou. Ela não respondeu somente apontou para cima, para a placa com nome do estabelecimento.

- Maria Flor? – ele perguntou sorrindo.

- Sei, não é o mais fabuloso dos nomes, mas dá para perceber de quem herdei o amor pelas flores. Herdei a loja dos meus pais, e eles deram meu nome a ela, o letreiro é dessa época.

- Não existe nome mais perfeito para a dona de uma floricultura – ele respondeu Não era verdade, mas antes que ela pudesse discordar do comentário estava sendo beijada por ele, no inicio o beijo era suave quase reverente...

Sentia como se todos os seus sentidos tivessem sido invadidos por aquele homem, ele cheirava a madeira e chuva, as mãos deles acariciam suas costas num movimento sensual e irresistível e quando ela cedeu abrindo os lábios, permitindo o acesso de sua língua se perdeu num mundo de sensações nunca antes experimentadas.

Ele sabia que não devia tê-la beijado, mas quando a viu à porta aberta quase ficara sem fala, ela usava uma calça jeans que delineava as deliciosas curvas de seu corpo, ela tinha seios cheios, não eram grandes, na verdade tinham o tamanho perfeito, não conseguia acreditar que não os houvesse notado antes... sentiu o corpo reagir a proximidade e quando ela sorriu seu cérebro deixou de funcionar, ela era a coisa mais fofa que ele tinha visto e seu único pensamento era dar algo bom para ela pensar, fazer com que a traição doesse um pouco menos, o que ele não contava era ser envolvido pelo perfume delicioso que emanava do corpo dela, ela tinha a boca mais saborosa que ele havia beijado e quando seu ataque mudou da boca para o pescoço delicado de pele aveludada, a sentiu ceder e teve realmente que segurá-la, o abandono de Maria Flor era tão delicioso que o fez perder a razão.
 
Sem deixar de beijá-la, os fez entrarem na loja, bateu a porta com o pé e a encostou contra ela. Ela tinha a pele tão macia, cheirosa e o fato de estar úmida da breve exposição à chuva a fazia ainda mais desejável... Fazia uns sons tão excitantes em respostas as suas carícias que a única coisa que pensava naquele momento era em conseguir uma cama.

Maria Flor sabia que em algum lugar da sua mente estava a noção de aquilo que estava acontecendo estava errado, ela acabara de romper com um homem por quem tinha acreditado estar apaixonada, um homem que nunca conseguira despertar as deliciosas sensações que esse desconhecido acordara... pelo amor de Deus não sabia nem como era o nome dele!

Aquilo que acontecia entre ele tinha que ser errado, mas tudo era tão intenso, as sensações eram fortes demais para serem abandonadas, nunca se sentira tão feminina, sensual, mulher... ela precisava disso, queria isso com todo seu corpo e sua alma e foi quando ouviram o toque de celular e a magia se quebrou.

- Droga. – ele praguejou em seu pescoço, ofegante e decididamente excitado. – Me desculpa. – o toque continuou insistente, ele atendeu sem soltá-la ou se afastar. – O que é? – quase gritou ao atender a ligação para ouvir a voz do irmão mais novo que queria saber por onde ele andava, estava mais que atrasado para o jantar - Cara aconteceu um imprevisto, acho que não consigo chegar a tempo. – os berros do irmão se fizeram ouvir além do celular, a pequena em seus braços tentava se afastar e decididamente não concordava com sua decisão de faltar ao aniversário de sua mãe. A vida, às vezes, era decididamente uma merda, ele pensou e a permitiu afastar-se.

Miguel realmente estava balançado, tinha algo acontecendo entre eles, mas ela não estava pronta e no dia seguinte ele embarcaria pela manhã aos EUA e voltaria somente na semana seguinte. Merda! Praguejou mais uma vez.

- Seu passaporte está em dia? – ele perguntou sem ao menos ponderar seu convite, dane-se a razão, ele a queria.

- Como? – ela perguntou estupefata – é fiscal da alfândega ou coisa assim?

Ela não conseguia respirar direito, muito menos pensar.

Ele se aproximou segurou em seu rosto e a fez olhar para ele.

- Preciso me ausentar do país durante uma semana e esse é o tempo que dou para você acertar as coisas com esse idiota. – optou por dar espaço, não queria que ela imaginasse que ele fosse algum tipo de psicopata.

- Esta falando do Cássio? – ela realmente não conseguia pensar.

- Estou falando que quero você para mim. – ele declarou e a beijou novamente, um beijo de posse, ele a marcava como dele. – Uma semana. – disse e se foi sem olhar para trás porque se o fizesse... não conseguiria.

Um fino assovio a chamou de volta a realidade.

- Uau - Rafaela que tinha entrado pelos fundos da loja em algum momento não escondia o quanto estava surpresa e divertida com a cena. – Aquilo foi um beijo? – perguntou.
 
- Não. – Maria Flor respondeu ainda entre ofegos – Foi o beijo. - e enquanto mirava a porta pela qual ele saíra se deu conta que o homem desconhecido não dissera seu nome.

- O que é isso? – Rafaela pegou apontou para a calça dela, Maria Flor tocou seu traseiro procurando algo errado e foi quando sentiu o tecido meio enfiado num dos bolsos traseiro da calça, porém o comprimento fazia o tecido de seda descer por sua perna e tocar o chão, ela puxou e reconheceu a echarpe caríssima.

- Isso é seda? Rafaela perguntou ao tocar o tecido – quero dizer, pura seda?

Maria Flor não respondeu, estava imersa nas lembranças dos beijos enquanto acariciava o tecido.

- Ele esta dizendo para você que vai voltar. – Rafaela opinou.

- Isso é loucura – ela sussurrou – eu sequer sei como ele se chama. – seu coração ainda batia descontrolado, ainda não conseguia acreditar que o bonito desconhecido a havia beijado com tanta fome, tanta paixão. – Isso foi real? – ela perguntou à amiga.

Rafaela riu, uma pergunta dessa só poderia vir de Maria Flor.

- Esse tipo de coisa não acontece a mulheres comuns como eu. – ela argumentou.

- A cena que eu presenciei e essa echarpe de matar, dizem o contrário amiga, eu detesto ser a pessoa que tem que lhe trazer para terra, mas tem o caixa e uma loja para fechar, depois a gente vai comer em algum lugar legal e encher a cara para esquecer os homens nojentos.

Maria Flor respirou fundo ao pensar no confronto com Cássio na manhã seguinte.

- Um brinde a isso. – disse ao depositar a linda echarpe no balcão.

Continua....

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